Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei.
Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua: nada tenho mais a perder.
Clarice Lispector
(1920-1977)
Quem sensação lhe causa ?
O grito que não gritamos , a palavra que não dizemos ,
o final que não enfrentamos , a angústia que disfarçamos ,
o sorriso sem alegrias , e as lágrimas não derramadas ?
Para que lutar contra o que nos torna humanos , e para que
fugir do que já está em nós .
A insistência em querer ser o que não é , em mostrar a dor que
não sentimos , o amor que não vivemos .
Os berros de quem não quer se ouvir é o que nos faz calar .
Escrito por rpitaguari às 14h14
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